terça-feira, 3 de abril de 2012

Anarquistas - papai, o gigante - Zélia Gattai

PAPAI, O GIGANTE
O grupo saiu de casa, como previsto, muito antes da hora costumeira e eu fiquei
entregue aos cuidados de vovô Eugênio, pai de mamãe, que passara a morar conosco desde a
morte de vovó Josefina. Chorei baixinho, arrasada, vendo a caravana partir. Não me consolou o
olhar penalizado de Maria Negra — a única a se preocupar comigo —, ao contrário, me fez ainda
mais infeliz.
Papai havia saído à tarde, não voltara para jantar. Minha esperança era de que ele
chegasse logo, queria desabafar minha mágoa. Sabendo que encontraria nele ora peito aberto,
resolvi esperá-lo no portão da rua. Ali me plantei, encostada às grades de ferro, e depois de longa
espera, cansada, resolvi sentar-me na borda da janelinha do porão, à sombra de uma enorme
árvore da rua. De repente parou um carro, papai saltou dele. Não perdi, tempo, rompi num
pranto convulso. Papai aproximou-se: quem chorava ali, daquele jeito?
— Ê você, minha filha? — perguntou-me alarmado. — Por que é que está chorando
aqui na rua?
Os soluços quase me impediam de falar.
— Foram todos para o cinema e me deixaram sozinha em casa... —: desabafei.
— E o Nono não está?
— Está dormindo...
— Vamos lá pra dentro, você vai me contar tudo direitinho, o que foi que te fizeram.
A par do sucedido, enxugando com um lenço as lágrimas de sua inconsolável caçula,
falou-me:
— Vá depressa se arrumar, passe água na cara e vamos dar uma lição naquelas
mulheres malvadas.
Não esperei segunda ordem, entrei em meu quarto, ligeira, apanhei um gorro de
crochê de lã, verde com listas vermelhas, enterrei-o na cabeça, quase até os olhos, enrolei no
pescoço um cachecol preto e verde de papai, e me apresentei:
— Pronto!
Saímos de mãos dadas, papai aquele gigante, eu lá embaixo. Coisa boa ter um pai
daqueles!
— Agora nós vamos comprar uma frisa para nós dois. Quero ver a cara delas quando
descobrirem a gente lá... — Papai ria divertindo-se com seu plano, contente de sentir a minha
emoção, de poder me vingar e, sobretudo, de ter conseguido secar minhas lágrimas, de me
restituir o riso.
A sessão começara havia muito. O "natural" já terminara — graças a Deus! — e a fita
cômica chegava ao fim. Coisa mais estranha! Não havia o barulho costumeiro que provocavam as
comédias, apenas algumas gargalhadas. O maxixe que acompanhava a fita era ouvido
perfeitamente, o violino de Carmelti fazendo misérias. O cinema estava repleto, sobravam apenas
algumas frisas vazias. Bem razão tinha Terêncio ao anunciar à Vera que naquela noite as crianças
iriam cedo para a cama. Segundo as teorias de mamãe, "vítimas dos sanguessugas do povo".
Que delícia estar ali naquela frisa acima da platéia, ao lado de meu pai! Puxa! Eu
nunca sonhara com tal coisa! Meu interesse pela comédia, naquele momento, deixara de existir.
Tudo o que eu desejava era o acender das luzes.
Por fim a sala clareou. A primeira a nos descobrir — não podia ser outra — foi Vera.
Deu um grito!
— Olhem só papai com a Zélia numa frisa!
Gritou e veio correndo.
— Aqui ninguém senta — foi anunciando papai, categórico.
— Esta frisa é só de nós dois. Pode ir correndo dizer à tua mãe e às outras. Aqui
não entra mais ninguém.
Meu coração estourava de contentamento. Pena não estarem presentes as crianças
com quem eu disputava sempre. Haviam de morrer de inveja.
O recado de papai deixou mamãe contrafeita. "Homem mais sem juízo!" Fazendo-lhe
as vontades desse jeito, acaba estragando a menina. Aliás, já está estragada. Se Ernesto estava
pensando que ela desejava sentar em frisa, estava redondamente enganado. Para ela, Angelina,
bastava a cadeira comum. A fita era a mesma tanto para os "burgueses" das frisas quanto para os
"proletários" das cadeiras.
Esses recados insultuosos — e outros mais — foram transmitidos por Vera, tintim
por tintim, num leva e traz de não acabar, até a hora de recomeçar a sessão.
Assisti a todos os lances do diabo e da sombra até o fim. Nessa noite não dormi nem
no cinema, nem na cama, mais tarde. Fita mais apavorante! Mamãe tinha razão. O diabo a colocar
um candelabro com velas acesas atrás do violinista durante o seu concerto, no palco, para que
todos percebessem que o músico já não possuía sombra. Devia ser horrível uma pessoa não ter
sombra. Nunca pensara nesse problema antes.
Jamais confessei a ninguém, muito menos à minha mãe, o medo que senti ao ver
Petrolini transformado em diabo.
Voltei para casa de mãos dadas com papai. Eu lá embaixo, ele um gigante quase
alcançando o céu, me protegendo. Sempre me protegeria — disso estava certa — com sua força e
sua bondade, contra todas as injustiças, contra qualquer diabo que quisesse se apoderar de minha
sombra.
 
Rev. Ms. Manoel Peres Sobrinho
O Senhor é o meu pastor e nada me faltará - Salmo 23:1.

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